Carta para 2014

Em 2014, alguns fatos me fizeram pensar sobre o legado que eu poderia levar da história do meu avô. Quatro anos se passaram e essa questão não deixou de ficar na minha cabeça. Cheguei a pensar que talvez o legado fosse manter unida a parte da família que me importa e que se importa comigo. Talvez fosse parte da resposta, mas parecia que lá do túmulo ele queria me dizer mais.

Este ano eu voltei pra Espanha. Viajar é sempre uma ótima oportunidade para encontrar respostas para buscas pessoais. Já me aconteceu na Bolívia e com certeza aconteceria no país que guarda parte das minhas origens. Passei por cidades que não conhecia, reencontrei primos que já conhecia e conheci outros que nem imaginava que existiam.

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O que você tem a me dizer, Sevilha?

Eu não preciso dizer sobre o quanto esse país me inunda. Cordoba provavelmente seja minha cidade preferida, mas Sevilha é a cidade que marca a minha história, já que minha mãe nasceu lá. Foi lá, na última cidade espanhola onde ele viveu, que algo me fisgou.

Já de volta, pensando na minha vida e assumindo algumas coisas, pensei na trajetória dele. E, num ponto em que quase dá para questionar algumas de suas atitudes, veio uma sensação: não olha pra trás. Vive a vida que você quer viver e não olha pra trás. Foi isso que ele fez. Sempre deixou junta a família que importava e não olhou pra trás. Voltou pra Espanha apenas a passeio e, mesmo por lá, não olhou pra trás. De alguma forma, ele quis me dizer isso e era o que eu precisava ouvir pra esse momento.

Foi escolha dele, agora é minha: não olha pra trás.

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As restless as we are

O Smashing Pumpkins encerra em breve uma série de concertos em comemoração aos seus 30 anos de existência. No último mês e meio, rodaram por algumas cidades nos Estados Unidos, vão pra Europa e fim. Billy Corgan lamentou recentemente em seus Stories do Instagram que infelizmente os fãs da América Latina, Oceania e Ásia não poderão ver essas apresentações por falta de convite.

Essas apresentações foram bem esquisitas, apesar do repertório apresentar tudo aquilo que se espera de um concerto dos Smashing Pumpkins. Teve participação da Courtney Love, que se apresentou como a boa e velha Courtney Love que conhecemos e teve o cara do Smash Mouth tocando o hit da banda, Fly. Ainda não entendi essa vibe, mas ok né?

Gosto de observar essa banda envelhecendo. O Billy Corgan se prova cada vez mais doido, mais megalomaníaco. Na única oportunidade que tive de conferir o Smashing Pumpkins ao vivo, durante o festival Planeta Terra de 2010, deu pra ver que o James Iha aparenta ser um humano cândido, o que me deixou com vontade de dar um abraço nele. Às favas quem falou mal desse show (eu sei quem vcs são kkkk), mas é óbvio que a apresentação que eu queria ter assistido era a de 1996, no Hollywood Rock. Eu tinha 13 anos, qual seria a chance? Queria ver a D’Arcy, quão louco seria ver a D’Arcy na minha adolescência?

De todo modo, Smashing Pumpkins tem sido um assunto recorrente aqui em casa. Meu marido e eu temos acompanhado essa turnê de aniversário e falado muito a respeito e só me toquei por esses dias que é uma banda que acompanho desde que comecei a desenvolver meus gostos próprios, até onde consegui ir naqueles tempos.

Na época do dólar vendido a 1 real, eu engrosso o coro daqueles que foram pra Disney em 1996 e, dentre as minhas compras, constavam os álbuns (What’s The Story) Morning Glory? do Oasis, o Dookie do Green Day e, claro, o Mellon Collie and The Infinite Sadness, do SP (tinham uns Bon Jovis tb, se permita ter guilty pleasures), que eu ouvia num discman também adquirido por lá. Quando fui pagar a compra, o vendedor disse que eu era “very alternative” (e eu nunca me senti tão lisonjeada em toda a minha adolescência).

Me lembro claramente de ouvir Bullet With Butterfly Wings naqueles fones: era, até então, a coisa mais pesada que eu tinha ouvido, num peso que me agradava, sem ter de me render ao Metallica e afins, com uma letra que conversava comigo. O verso “despite all my rage I am still just a rat in a cage” poderia muito bem definir o tipo de adolescente que eu fui nos anos 90. Descobri, entre tantas canções, a minha música preferida do álbum inteiro, Thru The Eyes Of Ruby. Tão mágica, tão cheia de empatia, tão cheia de clima e de narrativa. Poderia encerrar esse post com ela. Mas não.

Explico o motivo: Smashing Pumpkins me remete a tempos genuinamente ingênuos. Trancafiada no meu quarto com meus cds, meus quadrinhos e minhas revistas Showbizz, meio que já sabia quem eu queria ser, com o que queria trabalhar e que isso poderia dar certo. Esse é mais um post nostálgico e, exatamente por isso, apesar de eu ter nascido quatro anos depois, escolho:

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How many special people change

Eu devia ter uns 12 ou 13 anos. Camila era o nome da minha melhor amiga naquela época. Por algum motivo, ela decidiu que não seríamos mais amigas. Me escreveu uma carta e fez uma outra menina, Daniela, me entregar. Achei que era alguma brincadeira quando ela me entregou o papel dobrado, mas logo que li, fiquei chocada. Eu não entendi o motivo, tínhamos passado um final de semana tão excelente e, não mais que de repente, aquela carta.

Ainda me lembro da sensação de caminhar com a cara molhada pela escola, em prantos, até o carro do meu pai. Estava completamente confusa. Talvez eu ainda esteja, mesmo que isso não importe mais.

Mas o fato é que esses dias eu achei o perfil dela em uma rede social. Descobri que, talvez, Belle and Sebastian seja a banda favorita dela, já que ela usa uma música deles como nome de usuário. É a minha banda favorita também. E tudo isso me fez pensar em algumas coisas.

Parece que a vida inteira eu corri atrás de uma melhor amiga. Pode soar muito infantil, mas sempre gostei da sensação de ter uma pessoa do mesmo sexo com quem compartilhar as coisas corriqueiras. Daquela coisa que eu ainda não sabia chamar de sororidade, de empatia.

O último rompimento com uma melhor amiga aconteceu em 2012 e ainda tenho a sensação de estar rodopiando no melhor estilo Leila Lopes: parece que não vou chegar a lugar algum. Às vezes eu coloco os pés no chão, forço uma parada, mas não adianta, a força do giro ainda é muito forte.

Seria mentira se eu dissesse que não me decepcionei, que não doeu, que não perdi noites em claro tentando decifrar o que diabos aconteceu. O passado foi bonito, está adornado por um lindo laço e guardado ali em algum canto, mas chega. Alcancei um ponto masoquista demais. Pra alma e pro físico. Não dá pra seguir. Então eu decidi enfrentar a realidade: acabou. Coloquei mais uma vez os pés no chão, derrapei com os calcanhares, me custou a sola do tênis.

E sabe, se eu não aprendi aos 12, que seja aos quase 35 mesmo. Então chega de romantizar, Braz Cubas. No fim das contas, esse sentimento vazio cansa. Eu não quero ganhar status e muito menos cookie, e se hoje posso me dar algum luxo, esse é o de selecionar melhor as minhas companhias. Sem medo dos meus instintos, sem medo de fingir demência quando necessário, perdoando e pedindo perdão a quem devo. Sem necessidade de categorizar alguém como bff.

Por fim, gostaria de dizer que acabou, que é melhor parar de adiar, que tô fora. Lá fora. Bem fora. Longe, longe. Escondida, de modo que não vou querer ser encontrada. Catch me if you can.

——

PS. Camila, eu subi no palco do show do B&S em 2015. Stuart e eu cantamos “color my life with the chaos of trouble” olhando um pro outro e foi mágico. Ele não é tão alto quanto parece. Será que você também estava lá? Sei lá, não vou romantizar isso também, mas ó: sai de perto da minha banda favorita, ok? Não me leve a mal, só queria trocar essa indelicadeza com você em nome do ano de 1996 :)

Por duas batidas de coração

Daí então, a fibra parou. Aquele coração tomou um sobressalto arriscado e pagou pela própria ousadia: a partir de então, você deixou de existir. Em terras estrangeiras, a sua vida deixou de ser vida.

O velho clichê conta que, quando isso acontece, à frente dos nossos olhos, passa o tal do filme da nossa vida. Não saberia dizer se eu coadjuvei nessa sua película, afinal já não nos falávamos há treze anos, senão mais.

Gostaria de confessar que não me sensibilizei com a sua partida. Claro que fiquei impressionada pelas circunstâncias, mas fato é: descanse em paz, mesmo que eu não sinta a sua falta. Não me condenarei por isso. Segue o jogo.

Me lembro, ainda, das últimas palavras que você me disse: “vou trocar a internet discada de casa por banda larga”. Tínhamos acabado uma discussão fútil e você, do nada, decidiu falar da internet na sua casa. Depois disso, passei a ignorar sua existência. Eu não soube mais de você, e nem você de mim. Nos esbarramos duas ou três vezes pela cidade, completamente inexistentes e desimportantes um para o outro – e, por mim, tudo bem.

Não saberia dizer qual era a sua preferência política ou se você ainda ouvia Steely Dan. Mas sei dizer que, apesar da forma como a nossa amizade culminou, você fez algo importante para a minha vida, e me peguei pensando nisso, hoje: você me apresentou meu livro preferido. Você, que sempre romantizava todas as coisas ao seu redor, me apresentou meu livro preferido, que me ensinou a desromantizar todas as coisas ao meu redor. A vida é mesmo muito irônica.

Por causa disso, e porque assisti muito a Peixe Grande, gostaria de te dar um final diferente, menos horroroso, mais digno. Do jeito que eu penso que você mereça, da forma como penso que você gostaria que escrevessem sobre isso, em troca da indicação do livro, e também porque você foi o seu próprio Peixe Grande. Aqui vai:

Sua morte começa numa viagem pela América do Sul, onde você se enamora sobremaneira. Com apenas uma batida no seu coração, você descobriu que ela é dona de todos os fetiches com os quais já pode sonhar. Ela é o amor da sua vida. Vocês saem dali e conseguem correr o mundo a pé, visitam cada canto, comem cada pôr do sol com os olhos para que o amanhã logo se aproxime. Dão braçadas pelo mar e logo estão em outro continente. Fazem isso doze vezes e meia, precisam parar porque ela está grávida de você. Seu filho nasce em Bruxelas e é um ser mágico: tem dois corações, um para te amar como se deve amar a um pai, e outro para perdoar como se deve perdoar as falhas de um pai. Então vocês vão morar num farol, onde você consegue guardar todas as suas referências em caixas de especiarias. A vida te fez alguém diferente, por esse motivo. Você ama sua esposa, e seu filho cresce um metro a cada lua nova: é uma criança do tamanho do seu infinito amor. Você, então, sente um comichão te envolvendo e tudo formiga; você cai num poço sem fim e gira, gira. Vê sua família e seus amigos na espiral da queda, e eles vão acenando, dizendo um a um: “até logo”. Eis que você cai numa cama de mola. Seu corpo vai e volta cinquenta e três vezes, até que se acomoda no colchão. Seu filho te cobre com uma manta, e sua mulher te dá um beijo na testa e diz boa noite. Seu coração bate pela segunda vez e é o fim. Você viveu pleno, em duas batidas de coração. E foi feliz. Você pensa que, por ora, só quer dormir. E dorme. E está dormindo. Dorme até agora.

Bom sono. E obrigada pelo livro.

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À minha franja, com carinho

 

Acontece que, desde que o mundo é mundo, a minha franja cai na minha cara. Não é porque eu quero. Meu cabelo é muito liso e, ao menor peso, os fios vão pra frente da cara mesmo. Sabe natureza humana? Então. É isso também, e o fato de que meu cabelo cresce igual mato.

Isso já gerou bilhete da tia intrometida pra minha mãe. Tinha umazamiga intrometida na escola também que adoravam dar pitacos. E, quando no final dos anos 90, a moda era usar o cabelo repartido no meio e a franja na altura do queixo, ainda eu insistia com uma franjinha fininha.

“Você vai ficar vesga, Maria Renata!”

Good news: eu nasci míope. Todo mundo na família tem miopia. Ser vesga já faz parte da minha genética, portanto.

 

Agora que eu posso mandar cuidar da própria vida aquele que resolver pitacar acerca da minha franja sem ter que ir pra diretoria, andei pensando sobre isso.

Hoje cedo eu desci da estação de trem e bateu um ventinho. A franja veio pro meio do meu rosto. Eu cresci com a franja comprida. E concluí que ela faz parte de quem eu sou. Sempre fez, sempre fará, não importa o quanto eu corte, ela sempre vai querer competir com a base do meu nariz. E não terei problema algum se eu for lembrada por ser uma pessoa que anda com a franja na cara.

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Essa sou eu, estupidamente eu.

 

Portanto, me deixem. Vocês não merecem falar comigo, e nem com a minha franja.

Eu estou velha demais

Velha demais para não me dar ao luxo de poder postar o top 4 das minhas bandas preferidas. São as bandas que mais escutei nos últimos 10 anos (e algumas delas contam até além disso), portanto perceba: isso é muito, muito sério – tão sério que eu restringi a lista a 4 itens, e não a 5, como todo bom fã de Alta Fidelidade faz:

1- Belle and Sebastian
2- Teenage Fanclub
3- Superchunk
4- Big Star

Pronto. Agora já posso seguir mais tranquila para o futuro.

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Posto isso, me retiro.

Att,

Kim Gordon, Karen Carpenter, minha mãe

Isso já é bastante manjado: você sabe da obsessão do Oasis por Beatles, da relação do Bob Dylan com o Woody Guthrie, que o Echo & The Bunnymen ama o The Doors e etc… Apenas pra avisar, esse é um post mais ou menos sobre isso.

Tem a relação Carpenters e Sonic Youth. Não preciso mencionar do amor que a Kim Gordon nutre por Carpenters. Além da versão que o Sonic Youth fez para a música Superstar, tem também a música Tunic (Song For Karen), e a carta aberta que a Kim fez para a vocalista, já falecida, Karen Carpenter.

Recentemente, li a biografia da Kim Gordon, A Garota da Banda. Eu nunca pensei que uma biografia me afetaria tanto. A relação com Kurt Cobain, a maternidade, o fardo que é quando você escolhe assumir que é o que bem entende ser e ponto. Ontem finalizei a leitura, com lágrimas nos olhos.

Eu já estive na grade de um show do Sonic Youth, em 2009. Chovia, Kim estava com um vestido prateado maravilhoso, e girava no palco. É uma lembrança que guardarei para sempre.

Minha mãe não imagina quem é Kim Gordon. Kim Gordon não imagina quem é minha mãe. Mas: as duas têm a mesma idade e amam a mesma banda. Sim, ela também gosta de Carpenters.

Jamais minha mãe subiria ao palco para tocar noise. E eu também duvido que Kim Gordon dominaria algo sobre tabela periódica. Ambas me afetam,  cada uma à sua maneira.

E eu, invariavelmente, fico fascinada por esse tipo de relação: duas mulheres que têm tanto e nada em comum, e que me afetam de forma absurda.