Dear stalker

Dear Johann B.,

I hope this message reaches you.

The plot of international love affair is always seductive, ain’t that? And above truth, I should only thank you, even knowing I was catfished by you.

When I found that out, I could do nothing but laugh. Ok, I was fooled, but hey, did I ever promise you anything other than small talk and charming conversations? And did I expect to ever meet you? No, never.

But I am writing this because instead of being angry, I could only thank you. Because you kinda saved me.

You saved me from boredom, from weird days when I was trying to put things together and trying to put my life back into the tracks. You made me feel beautiful. Thank you so much!

You know, I am a married woman now, and I am so happy! And I wish I could talk to you once again. Were you so lonely you had to hide the real you behind some pretty swiss singer pictures to talk to people? I do not condemn you for doing so.

I still remember we talked about polka dot a house while listening to Solomon Burke. Nowadays I am an apartment lover and I barely listen to Mr. Burke, but this was so sweet, by that time.

Thank you, dear J. I send you my love overseas, wherever you are.

— Maria

PS. – I still listen to Belle & Sebastian
P.S.2 – The Fratellis sucks :)

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Por duas batidas de coração

Daí então, a fibra parou. Aquele coração tomou um sobressalto arriscado e pagou pela própria ousadia: a partir de então, você deixou de existir. Em terras estrangeiras, a sua vida deixou de ser vida.

O velho clichê conta que, quando isso acontece, à frente dos nossos olhos, passa o tal do filme da nossa vida. Não saberia dizer se eu coadjuvei nessa sua película, afinal já não nos falávamos há treze anos, senão mais.

Gostaria de confessar que não me sensibilizei com a sua partida. Claro que fiquei impressionada pelas circunstâncias, mas fato é: descanse em paz, mesmo que eu não sinta a sua falta. Não me condenarei por isso. Segue o jogo.

Me lembro, ainda, das últimas palavras que você me disse: “vou trocar a internet discada de casa por banda larga”. Tínhamos acabado uma discussão fútil e você, do nada, decidiu falar da internet na sua casa. Depois disso, passei a ignorar sua existência. Eu não soube mais de você, e nem você de mim. Nos esbarramos duas ou três vezes pela cidade, completamente inexistentes e desimportantes um para o outro – e, por mim, tudo bem.

Não saberia dizer qual era a sua preferência política ou se você ainda ouvia Steely Dan. Mas sei dizer que, apesar da forma como a nossa amizade culminou, você fez algo importante para a minha vida, e me peguei pensando nisso, hoje: você me apresentou meu livro preferido. Você, que sempre romantizava todas as coisas ao seu redor, me apresentou meu livro preferido, que me ensinou a desromantizar todas as coisas ao meu redor. A vida é mesmo muito irônica.

Por causa disso, e porque assisti muito a Peixe Grande, gostaria de te dar um final diferente, menos horroroso, mais digno. Do jeito que eu penso que você mereça, da forma como penso que você gostaria que escrevessem sobre isso, em troca da indicação do livro, e também porque você foi o seu próprio Peixe Grande. Aqui vai:

Sua morte começa numa viagem pela América do Sul, onde você se enamora sobremaneira. Com apenas uma batida no seu coração, você descobriu que ela é dona de todos os fetiches com os quais já pode sonhar. Ela é o amor da sua vida. Vocês saem dali e conseguem correr o mundo a pé, visitam cada canto, comem cada pôr do sol com os olhos para que o amanhã logo se aproxime. Dão braçadas pelo mar e logo estão em outro continente. Fazem isso doze vezes e meia, precisam parar porque ela está grávida de você. Seu filho nasce em Bruxelas e é um ser mágico: tem dois corações, um para te amar como se deve amar a um pai, e outro para perdoar como se deve perdoar as falhas de um pai. Então vocês vão morar num farol, onde você consegue guardar todas as suas referências em caixas de especiarias. A vida te fez alguém diferente, por esse motivo. Você ama sua esposa, e seu filho cresce um metro a cada lua nova: é uma criança do tamanho do seu infinito amor. Você, então, sente um comichão te envolvendo e tudo formiga; você cai num poço sem fim e gira, gira. Vê sua família e seus amigos na espiral da queda, e eles vão acenando, dizendo um a um: “até logo”. Eis que você cai numa cama de mola. Seu corpo vai e volta cinquenta e três vezes, até que se acomoda no colchão. Seu filho te cobre com uma manta, e sua mulher te dá um beijo na testa e diz boa noite. Seu coração bate pela segunda vez e é o fim. Você viveu pleno, em duas batidas de coração. E foi feliz. Você pensa que, por ora, só quer dormir. E dorme. E está dormindo. Dorme até agora.

Bom sono. E obrigada pelo livro.

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À minha franja, com carinho

Quando a sua franja cria vida própria, é um sinal de que tá na hora de ir embora pra casa.

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Acontece que, desde que o mundo é mundo, a minha franja cai na minha cara. Não é porque eu quero. Meu cabelo é muito liso e, ao menor peso, os fios vão pra frente da cara mesmo. Sabe natureza humana? Então. É isso também, e o fato de que meu cabelo cresce igual mato.

Isso já gerou bilhete da tia intrometida pra minha mãe. Tinha umazamiga intrometida na escola também que adoravam dar pitacos. E, quando no final dos anos 90, a moda era usar o cabelo repartido no meio e a franja na altura do queixo, ainda eu insistia com uma franjinha fininha.

“Você vai ficar vesga, Maria Renata!”

Good news: eu nasci míope. Todo mundo na família tem miopia. Ser vesga já faz parte da minha genética, portanto.

 

Agora que eu posso mandar cuidar da própria vida aquele que resolver pitacar acerca da minha franja sem ter que ir pra diretoria, andei pensando sobre isso.

Hoje cedo eu desci da estação de trem e bateu um ventinho. A franja veio pro meio do meu rosto. Eu cresci com a franja comprida. E concluí que ela faz parte de quem eu sou. Sempre fez, sempre fará, não importa o quanto eu corte, ela sempre vai querer competir com a base do meu nariz. E não terei problema algum se eu for lembrada por ser uma pessoa que anda com a franja na cara.

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Essa sou eu, estupidamente eu.

 

Portanto, me deixem. Vocês não merecem falar comigo, e nem com a minha franja.

Eu estou velha demais

Velha demais para não me dar ao luxo de poder postar o top 4 das minhas bandas preferidas. São as bandas que mais escutei nos últimos 10 anos (e algumas delas contam até além disso), portanto perceba: isso é muito, muito sério – tão sério que eu restringi a lista a 4 itens, e não a 5, como todo bom fã de Alta Fidelidade faz:

1- Belle and Sebastian
2- Teenage Fanclub
3- Superchunk
4- Big Star

Pronto. Agora já posso seguir mais tranquila para o futuro.

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Posto isso, me retiro.

Att,

Kim Gordon, Karen Carpenter, minha mãe

Isso já é bastante manjado: você sabe da obsessão do Oasis por Beatles, da relação do Bob Dylan com o Woody Guthrie, que o Echo & The Bunnymen ama o The Doors e etc… Apenas pra avisar, esse é um post mais ou menos sobre isso.

Tem a relação Carpenters e Sonic Youth. Não preciso mencionar do amor que a Kim Gordon nutre por Carpenters. Além da versão que o Sonic Youth fez para a música Superstar, tem também a música Tunic (Song For Karen), e a carta aberta que a Kim fez para a vocalista, já falecida, Karen Carpenter.

Recentemente, li a biografia da Kim Gordon, A Garota da Banda. Eu nunca pensei que uma biografia me afetaria tanto. A relação com Kurt Cobain, a maternidade, o fardo que é quando você escolhe assumir que é o que bem entende ser e ponto. Ontem finalizei a leitura, com lágrimas nos olhos.

Eu já estive na grade de um show do Sonic Youth, em 2009. Chovia, Kim estava com um vestido prateado maravilhoso, e girava no palco. É uma lembrança que guardarei para sempre.

Minha mãe não imagina quem é Kim Gordon. Kim Gordon não imagina quem é minha mãe. Mas: as duas têm a mesma idade e amam a mesma banda. Sim, ela também gosta de Carpenters.

Jamais minha mãe subiria ao palco para tocar noise. E eu também duvido que Kim Gordon dominaria algo sobre tabela periódica. Ambas me afetam,  cada uma à sua maneira.

E eu, invariavelmente, fico fascinada por esse tipo de relação: duas mulheres que têm tanto e nada em comum, e que me afetam de forma absurda.

Bebendo a Brisa

No final de semana errei feio, errei rude, como dizem por aí. Fui ao aniversário do meu amigo com uma dorzinha de cabeça e tomei um Advil. Fiquei somente na água. Porém, ao final da noite, duas amigas minhas apareceram, e eu, empolgada, esqueci do remédio e decidi tomar um drink com elas, no Ramona. Pedi o Brisa, com vodka e pêra.

Ao primeiro gole, o choque: fazia muito pouco tempo que eu tinha tomado o remédio. Em breve a mistura iria bater. E quando bateu, fiquei extremamente sonolenta, de modo que minhas amigas me mandaram pra casa.

Paguei a conta e entrei num táxi. Dei o endereço, o trajeto começou e logo estávamos debaixo do Elevado. Eu pescava e acordava incessantemente. Numa das acordadas, li a placa da rua: Amaral Gurgel.

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Logo pensei que, se eu tivesse um cachorro dachshund, ele poderia se chamar Amaral Gurgel. Seria um nome de respeito para o portentoso, respeitável e não tão religioso assim salsichinha.

Posto isso, antes que o Amaral Gurgel venha a existir na minha vida, já peço de antemão desculpas aos meus amigos com esses nomes, ok?

Lapsos de 2011

Achei um texto que escrevi em 2011. Ele não me diz mais nada, mas já disse. Eu lembro do que senti na época, e é bonitinho lê-lo, alguns anos depois. Era sobre um relacionamento que eu tive. Combinamos que seria só um lance, e assim ele foi. Mas ao encontrá-lo, lembrei do que sentia quando o escrevi: estava bem, porém com uma pontinhazinha de azedume (porque afinal somos feitos para sentir), e daí ele nasceu assim, feliz mas meio tristinho.

Vasculhando meu e-mail, encontrei-o por acaso. Achei que, tanto tempo depois, ele deveria estar aqui.

Monstro

Era um monstro esguio que me assustava no começo.

Tinha a pele escamosa e dentes que brilhavam no escuro. O andar era desengonçado e pesava mais sobre a perna esquerda. Era negro (embora às vezes usasse verde também).

O monstro tinha um esconderijo, cheio de gatos. Ele sempre se sentava no sofá mais confortável, enrolado num cobertor, tendo sempre às mãos um livro, uma xícara de chá quente e uma gata deitada no colo.

De vez em quando, como todo bom monstro faz, ele saía para escolher algumas vítimas a serem assustadas. Mas esse monstro só procurava nos lugares mais improváveis do mundo!

O que ninguém sabia era que o monstro gostava de dançar. Se a Sociedade Secreta dos Monstros descobrisse, ele estava frito. Por isso, de vez em quando esse monstro inventava de assustar pessoas em outras bandas, se disfarçava e ia pra longe, onde só tocasse as músicas que ele pudesse dançar fazendo air guitars sem que ninguém risse dele.

E foi em uma festa em que eu tinha dançado muito que ele me encontrou. Começou a me seguir e eu nem imaginava que era um monstro! A princípio me assustei, mas depois passou.

Um dia ele se escondeu debaixo da minha cama, mas eu não fiquei com medo. Eis que comecei a atraí-lo com boa música e a possibilidade de caminhadas charmosas. E ele, como um monstro de bom gosto, logo estava ao meu lado, caindo na minha armadilha.

O monstro não vai saber, contudo, nem da saudade que eu senti e nem das horas de Nick Cave que eu passei escutando por ele.

Até um dia, monstro.