Lapsos de 2011

Achei um texto que escrevi em 2011. Ele não me diz mais nada, mas já disse. Eu lembro do que senti na época, e é bonitinho lê-lo, alguns anos depois. Era sobre um relacionamento que eu tive. Combinamos que seria só um lance, e assim ele foi. Mas ao encontrá-lo, lembrei do que sentia quando o escrevi: estava bem, porém com uma pontinhazinha de azedume (porque afinal somos feitos para sentir), e daí ele nasceu assim, feliz mas meio tristinho.

Vasculhando meu e-mail, encontrei-o por acaso. Achei que, tanto tempo depois, ele deveria estar aqui.

Monstro

Era um monstro esguio que me assustava no começo.

Tinha a pele escamosa e dentes que brilhavam no escuro. O andar era desengonçado e pesava mais sobre a perna esquerda. Era negro (embora às vezes usasse verde também).

O monstro tinha um esconderijo, cheio de gatos. Ele sempre se sentava no sofá mais confortável, enrolado num cobertor, tendo sempre às mãos um livro, uma xícara de chá quente e uma gata deitada no colo.

De vez em quando, como todo bom monstro faz, ele saía para escolher algumas vítimas a serem assustadas. Mas esse monstro só procurava nos lugares mais improváveis do mundo!

O que ninguém sabia era que o monstro gostava de dançar. Se a Sociedade Secreta dos Monstros descobrisse, ele estava frito. Por isso, de vez em quando esse monstro inventava de assustar pessoas em outras bandas, se disfarçava e ia pra longe, onde só tocasse as músicas que ele pudesse dançar fazendo air guitars sem que ninguém risse dele.

E foi em uma festa em que eu tinha dançado muito que ele me encontrou. Começou a me seguir e eu nem imaginava que era um monstro! A princípio me assustei, mas depois passou.

Um dia ele se escondeu debaixo da minha cama, mas eu não fiquei com medo. Eis que comecei a atraí-lo com boa música e a possibilidade de caminhadas charmosas. E ele, como um monstro de bom gosto, logo estava ao meu lado, caindo na minha armadilha.

O monstro não vai saber, contudo, nem da saudade que eu senti e nem das horas de Nick Cave que eu passei escutando por ele.

Até um dia, monstro.

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