À minha franja, com carinho

Quando a sua franja cria vida própria, é um sinal de que tá na hora de ir embora pra casa.

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Acontece que, desde que o mundo é mundo, a minha franja cai na minha cara. Não é porque eu quero. Meu cabelo é muito liso e, ao menor peso, os fios vão pra frente da cara mesmo. Sabe natureza humana? Então. É isso também, e o fato de que meu cabelo cresce igual mato.

Isso já gerou bilhete da tia intrometida pra minha mãe. Tinha umazamiga intrometida na escola também que adoravam dar pitacos. E, quando no final dos anos 90, a moda era usar o cabelo repartido no meio e a franja na altura do queixo, ainda eu insistia com uma franjinha fininha.

“Você vai ficar vesga, Maria Renata!”

Good news: eu nasci míope. Todo mundo na família tem miopia. Ser vesga já faz parte da minha genética, portanto.

 

Agora que eu posso mandar cuidar da própria vida aquele que resolver pitacar acerca da minha franja sem ter que ir pra diretoria, andei pensando sobre isso.

Hoje cedo eu desci da estação de trem e bateu um ventinho. A franja veio pro meio do meu rosto. Eu cresci com a franja comprida. E concluí que ela faz parte de quem eu sou. Sempre fez, sempre fará, não importa o quanto eu corte, ela sempre vai querer competir com a base do meu nariz. E não terei problema algum se eu for lembrada por ser uma pessoa que anda com a franja na cara.

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Essa sou eu, estupidamente eu.

 

Portanto, me deixem. Vocês não merecem falar comigo, e nem com a minha franja.

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Eu estou velha demais

Velha demais para não me dar ao luxo de poder postar o top 4 das minhas bandas preferidas. São as bandas que mais escutei nos últimos 10 anos (e algumas delas contam até além disso), portanto perceba: isso é muito, muito sério – tão sério que eu restringi a lista a 4 itens, e não a 5, como todo bom fã de Alta Fidelidade faz:

1- Belle and Sebastian
2- Teenage Fanclub
3- Superchunk
4- Big Star

Pronto. Agora já posso seguir mais tranquila para o futuro.

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Posto isso, me retiro.

Att,

Kim Gordon, Karen Carpenter, minha mãe

Isso já é bastante manjado: você sabe da obsessão do Oasis por Beatles, da relação do Bob Dylan com o Woody Guthrie, que o Echo & The Bunnymen ama o The Doors e etc… Apenas pra avisar, esse é um post mais ou menos sobre isso.

Tem a relação Carpenters e Sonic Youth. Não preciso mencionar do amor que a Kim Gordon nutre por Carpenters. Além da versão que o Sonic Youth fez para a música Superstar, tem também a música Tunic (Song For Karen), e a carta aberta que a Kim fez para a vocalista, já falecida, Karen Carpenter.

Recentemente, li a biografia da Kim Gordon, A Garota da Banda. Eu nunca pensei que uma biografia me afetaria tanto. A relação com Kurt Cobain, a maternidade, o fardo que é quando você escolhe assumir que é o que bem entende ser e ponto. Ontem finalizei a leitura, com lágrimas nos olhos.

Eu já estive na grade de um show do Sonic Youth, em 2009. Chovia, Kim estava com um vestido prateado maravilhoso, e girava no palco. É uma lembrança que guardarei para sempre.

Minha mãe não imagina quem é Kim Gordon. Kim Gordon não imagina quem é minha mãe. Mas: as duas têm a mesma idade e amam a mesma banda. Sim, ela também gosta de Carpenters.

Jamais minha mãe subiria ao palco para tocar noise. E eu também duvido que Kim Gordon dominaria algo sobre tabela periódica. Ambas me afetam,  cada uma à sua maneira.

E eu, invariavelmente, fico fascinada por esse tipo de relação: duas mulheres que têm tanto e nada em comum, e que me afetam de forma absurda.

Bebendo a Brisa

No final de semana errei feio, errei rude, como dizem por aí. Fui ao aniversário do meu amigo com uma dorzinha de cabeça e tomei um Advil. Fiquei somente na água. Porém, ao final da noite, duas amigas minhas apareceram, e eu, empolgada, esqueci do remédio e decidi tomar um drink com elas, no Ramona. Pedi o Brisa, com vodka e pêra.

Ao primeiro gole, o choque: fazia muito pouco tempo que eu tinha tomado o remédio. Em breve a mistura iria bater. E quando bateu, fiquei extremamente sonolenta, de modo que minhas amigas me mandaram pra casa.

Paguei a conta e entrei num táxi. Dei o endereço, o trajeto começou e logo estávamos debaixo do Elevado. Eu pescava e acordava incessantemente. Numa das acordadas, li a placa da rua: Amaral Gurgel.

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Logo pensei que, se eu tivesse um cachorro dachshund, ele poderia se chamar Amaral Gurgel. Seria um nome de respeito para o portentoso, respeitável e não tão religioso assim salsichinha.

Posto isso, antes que o Amaral Gurgel venha a existir na minha vida, já peço de antemão desculpas aos meus amigos com esses nomes, ok?

Lapsos de 2011

Achei um texto que escrevi em 2011. Ele não me diz mais nada, mas já disse. Eu lembro do que senti na época, e é bonitinho lê-lo, alguns anos depois. Era sobre um relacionamento que eu tive. Combinamos que seria só um lance, e assim ele foi. Mas ao encontrá-lo, lembrei do que sentia quando o escrevi: estava bem, porém com uma pontinhazinha de azedume (porque afinal somos feitos para sentir), e daí ele nasceu assim, feliz mas meio tristinho.

Vasculhando meu e-mail, encontrei-o por acaso. Achei que, tanto tempo depois, ele deveria estar aqui.

Monstro

Era um monstro esguio que me assustava no começo.

Tinha a pele escamosa e dentes que brilhavam no escuro. O andar era desengonçado e pesava mais sobre a perna esquerda. Era negro (embora às vezes usasse verde também).

O monstro tinha um esconderijo, cheio de gatos. Ele sempre se sentava no sofá mais confortável, enrolado num cobertor, tendo sempre às mãos um livro, uma xícara de chá quente e uma gata deitada no colo.

De vez em quando, como todo bom monstro faz, ele saía para escolher algumas vítimas a serem assustadas. Mas esse monstro só procurava nos lugares mais improváveis do mundo!

O que ninguém sabia era que o monstro gostava de dançar. Se a Sociedade Secreta dos Monstros descobrisse, ele estava frito. Por isso, de vez em quando esse monstro inventava de assustar pessoas em outras bandas, se disfarçava e ia pra longe, onde só tocasse as músicas que ele pudesse dançar fazendo air guitars sem que ninguém risse dele.

E foi em uma festa em que eu tinha dançado muito que ele me encontrou. Começou a me seguir e eu nem imaginava que era um monstro! A princípio me assustei, mas depois passou.

Um dia ele se escondeu debaixo da minha cama, mas eu não fiquei com medo. Eis que comecei a atraí-lo com boa música e a possibilidade de caminhadas charmosas. E ele, como um monstro de bom gosto, logo estava ao meu lado, caindo na minha armadilha.

O monstro não vai saber, contudo, nem da saudade que eu senti e nem das horas de Nick Cave que eu passei escutando por ele.

Até um dia, monstro.

O que o deserto me deu

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Cochilei.

De quando em quando, nossos companheiros de viagem aquietavam-se, sobrava a paisagem desértica boliviana e silêncio. O balanço do jeep era um convite perfeito para uma soneca. Quando acordei, dei de cara com uma montanha, ao meu lado. Não era uma montanha qualquer: ela compunha a Cordilheira dos Andes. Estávamos quase ao sopé dela. A terra vermelha, o céu azul, o calor desértico, a neve no deserto (sim) e nós, tão pequenos dentro de um jeep, éramos um mero detalhe bobo na paisagem.

Meio tonta de sono, mas incrédula com a visão, alcancei minha câmera e fotografei a montanha. Assim, sem querer enquadrar perfeitamente, sem me preocupar com o vidro riscado e sujo da janela, que refletia um pouco do interior. Apenas sentimento. Apenas a sensação de vastidão. Se eu queria registrar um momento com uma foto, era aquele.

Antes de viajar, comentei com minha amiga que passaria alguns dias no deserto, começando pelo Atacama, no Chile, e depois, imigrando para o deserto de Siloli, acabando a viagem no Salar de Uyuni, ambos na Bolívia. Era uma viagem completamente voltada para os desertos. Ela, que é uma pessoa bastante mística, me disse que o deserto iria me dar alguma coisa. Não duvido de nada nessa vida.

A princípio o deserto me deu um pouco de falta de ar, mas logo resolvi mascando algumas folhas de coca, eventualmente. Mas eu mantive em mente o que minha amiga me disse, e não forcei sequer uma resposta. Um dia ela viria, se tivesse de vir.

E foi por esses dias que o deserto de Siloli me enviou um telegrama. Sim, finalmente! O deserto me entregou algo! O deserto me entregou o que estava bem naquele momento fotografado: vastidão. Me entregou infinitude. E entregou eu mesma, no meio disso tudo. Desde então, a sola do meu pé é vermelha-terra, por conta daquele solo, a minha pele é um pouco queimada por aquele sol, e o meu campo de visão absorveu toda aquela vastidão.

Jamais poderia imaginar que caberia tanto deserto dentro do meu aquarianismo. Quanto mais dentro do meu peito.

Obrigada, altiplano andino.